Do outro lado da mesa

(foto de helena gomes leão

N’alguns momentos era comum que ficasse assim: cabisbaixa, olhos soturnos e boca semi-aberta, como se estivesse pronta para explodir algum segredo. Fixava as pupilas negras num ponto abaixo da linha do horizonte e seguia, a passos lentos mas decididos, rumo à farmácia mais próxima. Era, claro, a drogaria do Seu Valdir, com “V”.

Acostumado a essas crises de melancolia da menina, já tinha reservada uma cadeira à sua excêntrica cliente. Ela habitualmente nada comprava. Apenas apontava para os frascos de remédios de gripe e coisas sem importância. Desta vez, porém, algo aconteceu: era como se seu universo particular tivesse finalmente colidido com a impossibilidade de existência sensível, entende? Como se o Big-Bang interior tivesse finalmente ocorrido, e fosse de tamanha força que toda sua nova matéria se colidia com a anti-matéria da realidade à volta dela. Era exatamente isso o que ocorria naquela tarde de 04 de abril de 2007. De alguma forma, a Páscoa se precipitara. E como lutar contra as leis da própria natureza? É como se algum de nós decidisse baixar um decreto vetando, desde já, a manifestação da Lei da Gravidade.

Grave era o estado da nossa jovem recém-colidida. Apontava, agora, para os remédios tarja-preta, de emagrecedores a anti-depressivos. Seus olhos orbitavam, tentando entender a real dimensão daquela loja, cujas pílulas prometiam felicidade a quem fosse mais atento para ouvi-las. E ela ouvia. Calmamente. Sem se fixar em nada. 

– Queria apenas uma caixa pequena e azul, onde pudesse esteirar seu corpo mole;
– Queria apenas um vidrinho branco, o qual recepcionaria sua mente;
– Sobretudo, desejava aquele pote vermelho, que lhe prometera tantas felicidades… 

Sentindo, como sempre, a impossibilidade de agradá-la, Seu Valdir com “V”, confiou-lhe, mais uma vez, uma de suas “aspirinas”.
E seu pequeno novo universo agora vagava… com Lucy e seus pontiagudos diamantes, no tão interminável céu…

 

Olha aqui, eu vou te contar um segredo: existe a possibilidade de que aquela menina tenha sido, de alguma forma, algo como “eu”. Seja lá o que isso seja lá…

Engraçado como, à nossa volta, tudo nos mente. Hoje prometeu chover. Mentiu. 

Enquanto Durmo

 

 

Composição: C. Oyens e Zelia Duncan

Muitas perguntas que afundas de respostas
Não afastam minhas duvidas
Me afogo longe de mim
Não me salvo porque não me acho
Não me acalmo porque não me vejo
Percebo até, mas desaconselho

Espero a chuva cair
Na minha casa, no meu rosto
Nas minhas costas largas
Espero a chuva cair
Nas minhas costas largas
Que afagas enquanto durmo,
Enquanto durmo, enquanto durmo…

De longe parece mais fácil,
Fragil é se aproximar
Mas eu chego, eu cobro
Eu dobro teus conselhos
Não me salvo porque não me acho
Não me acalmo porque não me vejo
Percebo até, mas desaconselho

Espero a chuva cair
Na minha casa, no meu rosto
Nas minhas costas largas
Espero a chuva cair
Nas minhas costas largas
Que afagas enquanto durmo,
Enquanto durmo, enquanto durmo…

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~ por Bea Galvão em abril 5, 2007.

3 Respostas to “Do outro lado da mesa”

  1. Assim sentada, calada, para um café bem forte, revigora a mente, nos faz ir mais longe no dia e na noite. Sempre aqui, Bia, compartilhando palavras e cafés.
    Beijo.
    Ps. doces palavras lá na minha janela :)!
    Sabe, adoro capuccino!

  2. É como eu disse, Leiluka: o café já tá quente, é só pedir o seu… E aqui os desassossegados são sempre bem-vindos!

  3. […] Do outro lado da mesa […]

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